Insustentavel leveza do ser

quarta-feira, junho 22, 2005

Real, Fantástico, Cru

Cheguei na parte principal de um dos livros Clarice que estou lendo - A Paixão Segundo G.H.. Só que antes de chegar ao trecho que marca o apíce do livro (sabia pela sinopse) o caminho que ela faz com as palavras e com as sensações é que é sensacional. É um livro um tanto desconfortante, ou mesmo insólito, viajante, como muitas pessoas achariam. Mas gosto. Gosto e acho até que justamente por isso. Para resumir um pouco vai narrando a história de uma mulher que em um momento de sua vida, rompe com seu mundo de certezas e vive uma experiência que faz ela mergulhar no desconhecido. Até chegar a esse ponto, ela tenta se preparar, se despir de seus medos, rever sua vida, dizer quem era. E precisa da cumplicidade do leitor. Ela precisa se preparar pois a situação que faz essa ruptura, é para ela assustadora e não sabe o que fazer dela. Antes desse episódio, ela se descreve uma mulher que sempre procurava organizar sua vida e seu entendimento de si mesma. Se dizia ser uma mulher entre aspas - Como se fosse uma citação. Dizia que não precisava cumprir um papel pré-determinado, mas tinha se achar catalogável. E por aí vai..(vou colar trechos do livro para dar uma ilustração melhor). Até que ela numa dia que ía fazer faxina em sua casa , se depara no quarto de sua antiga empregada, pois era onde iria começar. A primeira coisa que acontece é um estranhamento e sensações de surpresa e desconforto com o quarto. Como se através de suas descrições, o quarto representasse uma porta para essa nova situação que iria viver e que até o momento não sabia. E também nesse quarto(que é descrito cheio de significados e muito bem) ela também vê uma barata. Até aí uma situação simples - uma faxina num quarto de empregada, onde lá está uma barata. Só que o quarto e a barata em verdade são símbolos e os símbolos marcantes para esse mergulho. Então através disso, ela se defronta numa verdade mais real, e que chama de horrível pois não cabe no sentidos e regras humanas. Para resumir mais (pois ainda não cheguei ao que de fato acontece e vcs devem estar curiosos) ela mata a barata e depois prova de sua substância(a substância branca que sai da barta morta). Simbólico , louco, causando náuseas, ler isso pode causar esse estranhamento mesmo. Mas o que gosto desse livro e da leitura da Clarice é como ela percorre no desconhecido, se aprofunda nas sensações humanas e não só no que faz sentido, no tangível. Ela simplesmente vai. Parece ultrapassar. Parece querer tocar e nos deixar em carne-viva. Tocar em verdades mais profundas, como romper com coisas pré-establecidas, olhares superficiais. E a mulher se pega assustada justamente por isso - parece que sentiu com muita intensidade uma verdade bruta, real, crua, que ultrapassa determinados sentidos existentes. E nisso me identifico - porque tem muitas coisas que ultrapassam essas "certezas" e esse mundinho de fórmulas que nos cerca.

De qq maneira, ler Clarice é uma experiência que vai ao fantástico, ao demasiadamente humano e que também por isso não é fácil.. É sentir e ir.. Lendo para experimentar.
Vou colar fragmentos do livro aqui para compartilhar melhor.. E ainda estou na metade - vou ver ainda o que vai se suceder depois dessa viajem..

"Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai. " - A paixão segundo G.H.