Insustentavel leveza do ser

segunda-feira, novembro 07, 2005

A gente se acostuma. Mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista,logo se acostuma a NÃO olhar p/ fora. E, porque não olha p/ fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece a ar e esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasada. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo de viagem.A comer sanduíches porque não dá p/ almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números p/ os mortos. E aceitamos os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceita ler todo o dia de guerra, dos números e da longa duração.A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir p/ as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado, quando precisava tanto ser visto.A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e necessita. E a lutar por ganhar menos do que precisa. E a fazer fila p/ pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro p/ ter com que pagar nas filas em que se cobra.A gente se acostuma à poluição e à luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da àgua potável, à contaminação da àgua do mar e a lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé e a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, p/ não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado.A gente se acostuma p/ não se ralar na aspereza e preservar a pele. Se acostuma p/ evitar feridas, sangramentos, p/ esquivar-se da faca e da baioneta, p/ poupar o peito. A gente se acostuma p/ poupar a vida, que aos poucos se gasta, e, que de tanto se acostumar, se perde de si mesma.

-Marina Colassanti.-